A galinha parecia ter enlouquecido, não parava de cacarejar e estender as asas, sempre de um lado para o outro. Retorcia o pescoço e revirava os olhos enquanto se lamentava: “Já sabia mal a vi! Fui-me meter em grandes sarilhos! Cá rá cá! E agora outro frango vai ficar com o meu pastel! Có!” Entretanto Luzia levantara-se, sacudira o pó e olhava a estrada. Lá ao longe viam-se casas e um pouco mais à frente o que pareciam ser troncos enormes mas sem ramos nem folhas. Porém estavam ainda um pouco longe. “Parece-me que vejo a cidade lá ao fundo! Que bom! Temos de lá chegar antes que a noite nos abrace”. “Vamos, deixa-te dessas coisas, parece que ficaste gágá” repreendeu a galinha mas Luzia não lhe ligou e acrescentou no gozo “Ficas ou vens? Pode ser que ainda arranjemos pastéis frescos quando lá chegarmos. Eu estou a ir” e pôs-se a caminho. “Cá!” respondeu-lhe a galinha de desprezo, mas ficou a pensar nos pastéis. Luzia já ia à frente quando avisou a galinha: “A noite traz as raposas à espreita por detrás da luz da lua! Cuidado!”. A galinha olhou para trás e viu o sol que ia baixo – arregalou os olhos e desatou a correr assustada de encontro a Luzia: “Não me deixes aqui! Cá!”.
“Eu sabia que vinhas!” disse-lhe Luzia quando a viu ao seu lado quase sem conseguir respirar depois da corrida. Depois acrescentou “apesar de seres assim doida e com miolos de pastel és engraçada. Gágá mas engraçada. Já sei! A partir de agora vou-te chamar Gagalinha”. “Cá! És maluca!” repontou a Gagalinha, “eu só vou por causa do pastel!” e seguiram caminho.
Iam a meio quando uns arbustos se remexeram na berma. Luzia aproveitou para brincar com a Gagalinha: “Eu avisei-te! Se não nos despachamos para alcançar a cidade as raposas ficam atrevidas e põem-se a espreitar atrás dos raios de luar”. “Cá!” exclamou assustada a Gagalinha e, apressando o passo dizia-lhe: “Vamos, despacha-te! Có ró có! Có! Que a miúda é preguiçosa! Os pastéis estão a ganhar pó! Vamos mais rápido! Cá cá cá!”
O barulho voltou-se a repetir mais a frente. Luzia que estava habituada aos barulhos da mata ria-se por dentro ao poder aproveitar a ocasião para brincar com a Gagalinha e disse-lhe em voz de falsete: “Raposa!”. A Gagalinha deu um salto: “Có! Não chames o azar miúda!” e apressou o passo ainda mais – até esticava o pescoço para ver se chegava mais cedo. Luzia ria-se.
Ia Luzia neste gozo à galinha quando o barulho do mato se tornou mais forte e saltaram para a berma da estrada quatro rapazes vestidos com umas roupas estranhas: um tinha umas cuecas por cima de uns calções esfiapados e um autocolante em cada orelha; outro trazia um resto de um pneu à cabeça a fazer de cabeleira e usava uns sapatos sem sola de onde espreitavam os dedos dos pés quando andava – vinha de tronco nu e camisola atada à cintura; o terceiro era o mais alto e o que melhor estava vestido mas trazia a cara pintada com uns riscos brancos e de longe cheirava aos rebuçados de mentol dos que às vezes se vendiam na estação do comboio, era tão magrinho – tinha enfiado tantos elásticos no pulso que lhe chegavam ao cotovelo; e o quarto…bem, o quarto metia medo ao susto, com um colete de lata velha por cima de um saco antigo de arroz que lhe servia de túnica e, no olho direito, trazia o fundo de uma garrafa de gasosa a fazer de óculo – era o mais baixo de todos.
Vinham os quatro a dançar e a cantar e puseram-se de volta de Luzia: um batucava nas latas do outro, o mais alto cantava e outro dançava consoante a letra da canção. Luzia deu um passo atrás e a Gagalinha estacou hirta e acabou por desmaiar de susto.
O rapaz de pneu à cabeça dançava enquanto o mais alto cantava:
“É cara feia! É cara feia! Nós somos o bando terrível
Na beira da estrada
E estamos aqui para fazer uma cara horrível
A quem passa sem dizer nada
Agora vais conhecer o Kafunhonho e a sua cara feia!
É cara feia! É cara feia!”
E o rapaz, que devia ser conhecido por Kafunhonho avançou para o centro e começou a dançar! Parecia partir-se todo tão magricelas era. Esta compenetradíssimo em dançar o que o amigo cantava:
“Ele nasceu na noite mais escura do inverno
As suas tias desmaiaram quando viram sua cara feia
Vinha c om sede de quem saiu do inferno
Mas não havia água e só encontrou petróleo do candeeiro
Bebeu – pegou fogo – ficou bem preta sua cara feia
É Kafunhonho! É Kafunhonho!
Faz de morto agora e volta para onde vieste!”
E o Kafunhonho caiu morto no chão e deslizou para trás como se fosse uma minhoca a regressar à sua toca. Mas a música deles não parava:
“Mas já aí vem o Vandame rei da capoeira
Ele sabe kung-fu e karaté, ele bateu todos os tching-tchang-tchung
Ele é barra, vais ficar sem maneira
Vejam só ele está a dar, ele já não consegue parar,
É uma máquina de chapar, vejam só ele vai te amassar!”
E o rapaz das cuecas por cima dos calções, conhecido por Vandame entrava a fazer truques de luta enquanto dançava, saltava, fazia rodas, pinos e rotativos.
“Se não tem medo, você vai ter respeito
Se não respeita, nós vamos te ensinar
É que nesta dança o Vandame tá a reinar
Se não entras na onda ele vai-te disciplinar
Até os bosses voltam atrás se o vêm passar
É o Vandame! É o Vandame! Dá-lhe agora!
Faz de aleijado e volta para trás!”
E o tal de Vandame, fingindo ter sido atingido por um golpe finge estar aleijado e volta aos saltos para trás, sempre ao ritmo da batida.
“Só restam dois agora é o Paizinho,
Esse de luneta é o meu kamba sabichão,
É ele quem te vai pôr a questão,
Nem a professora lá na escola te vai ajudar,
É um quebra-cabeças díficil de decifrar
Todos têm medo de nos vir a encontrar
Porque depois entro eu, sou o Jamba a matar
Sou este aqui a comandar este kuduro
Jamba é boss vai decidir o teu futuro
Um dia aqui o outro no Mussulo,
Jamba é rei e vai te perguntar – Agora!”
E a batida parou.
Só se ouviam os grilos que trazem o início da noite e uma brisa quente a enrolar-se no mato.
O Jamba avançou na direcção de Luzia que não se mexeu. Fez-se silêncio. Os outros três olhavam muito sérios de braços cruzados. “Como te chamas?” perguntou. “Luzia” disse ela baixinho. “Vais onde dona Luzia?” perguntou a seguir. Mas ela não respondeu logo. Levou a mão ao bolso e sentiu o papel da carta por entregar e agarrou-a com mais força. Finalmente respondeu: “Vou à cidade ter com o meu pai”. “Quem é o teu pai? É boss ou é desses tios que puxam o kangulo?” perguntou o Jamba. Luzia não sabia o que era o kangulo nem o que era um boss parecia que o rapaz falava estrangeiro às vezes. Para além disso começava a ficar impaciente com estas perguntas todas e começou a andar e a dizer: “Não sei. Agora preciso passar, dá licença sim?”.
Mas o Jamba pôs-se à frente e os outros três deram um passo em frente fechando mais o círculo: “Como não sabes? Ou não queres dizer? Vou chamar o Kafunhonho – cara feia? Ou talvez o Vandame?” disse o Jamba com a cara fechada, de quem está a comandar um pelotão. Depois acrescentou “Porque não estás com o teu pai? Estás perdida?” Luzia respondeu: “Não sei, não o conheço, vou só à procura dele” acabou por revelar Luzia e depois desabafou: “Nunca estive na cidade”.
Jamba parou e disse: “Fica quieta moça – nenhum movimento suspeito! O bando dos Terríveis vai decidir”. A Gagalinha acordou nesse instante e ainda meio zonza disse “Cá! Luzia, tanto pó faz-me sentir mal! Estou a precisar de uma maçaroca! Cá! Pareceu-me ter visto um diabo dos infernos!” Foi quando o Kafunhonho, cara feia se chegou por trás dela e lhe disse perto do ouvido: “Bu!” e a Gagalinha voltou a desmaiar de susto.
Três dos terríveis discutiam um pouco atabalhoadamente: Jamba, Kafunhonho e Vandame até que a certa altura perguntaram ao Paizinho. “Como é que estás a ver a situação na tua luneta?” Ele ajeitou o seu monóculo de fundo de garrafa, isto é, a lente que faz ver as coisas do tamnho que elas são e disse: “Ela fala verdade”. E Jamba disse: “Então vamos ajudá-la! Ela vem connosco.” mas Vandame não estava contente: “Ela é moça não pode vir com os Terríveis!” e o Kafunhonho acrescentou: ”Vão se rir de nós quando nos virem com ela”. Jamba pensou e perguntou : “Ela precisa de ajuda, não conhece a cidade, ainda a vão pegar. Os Terríveis também estão aí para ajudar ou não?” Eles pensaram e assentiram que sim e o Jamba continuou: “Então é verdade que ela é moça e os Terríveis têm de ser os mais feios do bairro, por isso temos de lhe arranjar um disfarce, certo?” Eles pensaram e acenaram que sim novamente. “Hoje vamos levá-la e antes de entrarmos na cidade disfarçamos a moça” disse Jamba. Depois olhou para trás para ela e virou-se novamente. Luzia esperava a decisão do grupo. “Vejam só até não está mal – ela já tem meio cabelo no ar, parece saída da casa dos malucos, não vai ser difícil passar por Terrível” e os outros olharam todos para ela. Luzia viu-os a olharem todos ao mesmo tempo e ansiou saber a decisão final.
Todos se voltaram novamente uns para os outros e continuaram a discutir. Luzia olhava agora a cidade que começava a brilhar no final do dia. Pareciam caixotes, muitos a encher o horizonte, cheios de candeeiros acesos. Deviam ser as fogueiras enormes de que lhe tinha falado o tio Máquina. As lágrimas vieram-lhe aos olhos quando pensou que em casa deviam estar preocupadas por não saber dela. Mas, ao mesmo tempo sabia que agora era tarde demais para voltar e não havia outra solução senão entrar na cidade e procurar o pai.
Jamba voltou a avançar na direcção de Luzia. Os três secundaram-no de braços cruzados.
“O bando dos Terríveis decidiu e agora vais escutar! O Paizinho com sua lente que faz ver as coisas do tamanho que elas são viu-te a alma por dentro enquanto falavas e o Kafunhonho e o Vandame concordaram. Vamos levar-te à cidade, mas só amanhã. Hoje já é tarde. Vamos dormir no nosso esconderijo do espinheiro.”
A Gagalinha recuperou os sentidos nessa altura e ainda ouviu que iam dormir ao relento e antes de desmaiar suspirou: “Cá! Ai as raposas!”.