Amigas

A Luzia gosta muito do cheiro da sua mãe pela manhã, antes de sair para o campo. Cheira a flores, isto é, é sabão que parece deixar flores na pele. A mãe recomenda-lhe antes de sair: “Nada de brincar na Estrada, nunca se sabe quem nela vai chegar para te pegar!” e a Luzia pensa “é bom o cheiro da mãe” sem prestar muita atenção ao que ela diz. E a mãe despede-se ainda o sol não espreita por cima da montanha.

Muitas vezes Luzia fica a pensar na Estrada. Ela parece não ter fim.

“Um dia pode chegar o meu pai para nos levar à cidade ver as fogueiras que se acendem no cimo dos embondeiros mais velhos”, diz a Luzia às amigas, e elas riem-se desconfiadas e recomendam-lhe: “Penteia-te Luzia, arranja a tua saia e deixa-te de sonhos senão nenhum rapaz vai demorar os olhos e as falas em ti”. Luciana pede-lhe “Deixa-me trançar-te sim? Posso fazer-te uns puxinhos com estas contas azuis e laranjas”. “Vais brilhar com tanta banga!” exclama a Susana enquanto lhe põe as mãos no cabelo e lhe puxa um ou outro caracol na brincadeira. “Larga-me Susana! Não abuses!” responde-lhe Luzia enquanto afasta as duas amigas. “Vocês perdem tempo com coisas tão pequenas! Não vos interessa conhecer mais? Há tanto para aprender e vocês só pensam em namoro ?!”

Todos os dias as amigas conseguem arreliar Luzia e divertem-se a dançar e cantar em torno dela:

O mundo inteiro não vai chegar para fazer Luzia feliz

Um dia num comboio vai entrar e partir para onde quis

Ela quer ver o mundo ao avesso a girar

Vai descobrir o pólo norte no sul e onde o sol se vai deitar

Mas só isso não vai bastar chegando lá ela vai partir

À lua não vai chegar só mesmo se boleia não conseguir

O pior vai ser quando voltar…

Ela verá que só vai restar….

Um bode velho p’ra casar!

Esta canção deixa Luzia furiosa! Ela corre atrás das amigas que fogem a rir e a cantar: “Ela verá que só vai restar um bode velho p’ra casar! Ela verá que só vai restar um bode velho p’ra casar!” repetem elas enquanto correm. E sobem às árvores, escondem-se atrás das casas dos vizinhos, dentro da capoeira e, quando Luzia as descobre gritam e fogem a correr por cima dos panos que secam nos quintais, dos fogareiros que se apagaram com o chegar da manhã e dos cestos vazios deixados à porta das casas. Elas tentam procurar abrigo. E apontam para as galinhas que fogem de susto e gritam : “Só vai restar uma galo velho p’ra casar!” e espantam os porcos para enganar Luzia que as persegue e gritam: “Só vai restar um velho porco p’ra casar!” até que ela se cansa de perseguir as duas e as deixa aproximarem-se mas só se pedirem desculpa com jeitinho. Elas querem pentear Luzia.

As duas amigas gostam de penteá-la antes de irem juntas para a venda. Às vezes Susana ainda começa a assobiar baixinho: “fiu fiu fiu … p’ra casar” mas a Luciana interrompe-a rapidamente: “Já chega agora! Vamo-nos arranjar e pegar nas bacias para ir vender junto à linha. Não tarda nada já o sol passou acima da casa do tio Máquina e o comboio vai longe…”. “Ai!”, responde Luzia, “ já estamos atrasadas” e levanta-se, com o cabelo meio trançado, meio espetado como um ouriço. As amigas riem-se: “Deixa acabar Luzia!”. “Vamos só mesmo assim”, responde Luzia enquanto pega na bacia, “tenho que vender tudo hoje para fazer a minha mãe feliz quando chegar logo a casa e me dar os 10 para comprar carta no tio Máquina”. Luciana corrige-a: “Não é comprar carta tonta, é comprar papel de carta”, “Deixa-me pentear-te Luzia” acrescenta Susana. “Vamos só, já chega de vaidades!” responde Luzia e põe à cabeça a bacia de cana de açúcar enquanto se põe a caminho.

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