Susana e Luciana pegam nas suas bacias de coco, banana e maçaroca e seguem Luzia. Elas estão curiosas: “E vais escrever a quem?” perguntam-lhe. “Ao meu pai”, responde Luzia de olhos a brilhar, “a pedir que ele volte o mais rápido que consiga para me levar e à minha mãe a ver a cidade e as fogueiras que brilham toda a noite nos ramos dos embondeiros, a conhecer as pessoas que lá habitam, o mercado grande, a paragem dos autocarros e dos táxis…”. “Vais conhecer o presidente?” pergunta Luciana. “Se eu pudesse, escrevia era ao Nereu a pedir que ele me goste” suspira Susana, “Não se diz pedir que ele me goste sua cabeça oca”, corrige de imediato Luciana, “é pedir namoro” e desatam as três a rir do engano da Susana. De repente, do lado da ponte, escutam o apito do comboio: “Apressem-se – já oiço o comboio a chegar” diz Luzia, nervosa, e todas se ajudam a carregar as bacias o mais rápido possível para chegarem a tempo de venderem aos passageiros o que carregam.
Chega o comboio: cor de areia e telhados vermelhos. Vem tanta gente à janela! Algumas pessoas sentam-se à porta dos vagões a abanar as pernas, ansiosas por pisar terra. São muitas as diferentes vozes e mil as conversas que estoiram quando o comboio pára e o fiscal de linha baixa a bandeira. De dentro todos procuram quem está na estação, o que há para comprar, quais são as novidades e quem está apeado espera que o chamem ou que consiga reconhecer alguém que viaja e pôr a conversa em dia.
Às vezes encontram-se familiares que já não se viam há muito tempo, amigos de infância que o tempo afastou e a festa é grande. Outras vezes mete-se conversa só por alguns instantes.
As amigas, de bacia à cabeça percorrem o apeeadeiro ao lado das carruagens a apregoar “cana!”, “olha o coco!”, “está aqui banana!” e, tal como elas outras tantas raparigas e rapazes passeiam alguma coisa para vender: maçaroca, saquinhos de água, rebuçados e chupas, corta-unhas e pilhas para o rádio. Os mais velhos ficam sentados à espera que alguém queira comprar um saco de carvão, uma galinha para levar para casa, com sorte um porco ou uma cabra são vendidos e em dias especiais alguém veio de longe para levar um boi que tinha encomendado há muito tempo: ainda os pés de milho não tinham rebentado. Os animais sobem assustados para os vagões e todos ajudam e a confusão é grande. Ouvem-se os rádios a tocar, os pregões e as conversas, o respirar mecânico do comboio.
São só cinco minutos em que tudo se tem de vender para em casa haver um pouco de dinheiro para pagar a escola, um saco de sal, os panos da mãe e dos filhos e, se sobrar algum fica debaixo da esteira para um dia em que seja preciso. A Luzia quer mesmo é vender tudo e é a melhor de todas a convencer os viajantes a comprar o que traz: “Esta cana é bem docinha, melhor não há não! Nem as nuvens são tão doces como esta que vendo senhores!” e as pessoas bem-dispostas a pensar em nuvens e em coisas doces apressam-se a comprar. A mãe é a primeira a reconhecer as suas qualidades e por isso prometeu-lhe: “Luzia se esta semana venderes tanto como nas outras podes tirar 10 da venda e comprar papel de carta para escrever ao teu pai”.
Mas o comboio já está a apitar de novo e os que se apearam correm de novo para as carruagens, empurram os sacos e animais que compraram; as mulheres que vão viajar com os filhos atiram as grandes trouxas antes de subirem e todos se ajudam para que ninguém fique. O fiscal apita do cais e, quando o comboio arranca Luzia ainda está a vender um último pedaço de cana: “Está aqui senhor! São 5!”, o homem procura nos bolsos a nota e estende-a pela janela a Luzia: “Só tenho 10 moça. Dá-me troco, sim?” Luzia corre atrás do comboio e salta para apanhar a nota, procura atabalhoadamente no rodilho de pano uma nota de troco, sem nunca parar. Para ir mais rápido deixa a bacia para trás e salta, mesmo antes do apeadeiro chegar ao fim para dar o troco ao cliente: “Obrigado moça!” despede-se o senhor já o comboio está a virar lá ao fundo da linha.
“Ufa!” suspira Luzia. Quase nem deu tempo para as despedidas.
É agora altura das três amigas se reunirem de novo e contarem umas às outras como correu. Luzia está cansada mas contente: “Consegui vender tudo – a minha mãe vai ficar feliz”, “E vais poder mandar uma carta ao teu pai”, acrescenta Luciana. Susana oferece um coco que lhe restou: “Querem partilhar para celebrarmos?” As três sentam-se no cais a escutar o comboio que já vai longe e deixa para trás o som da montanha cheio de pássaros, cores e mistérios. Enquanto comem o coco fresco saboreiam a felicidade de estar entre amigas.
A Susana ainda suspira: “Se eu pudesse escrevia ao Nereu… a dizer que me goste…”, “Não sejas tontas miúda, ainda és muito nova para essas coisas”, responde-lhe Luzia. “Olha só, agora é que me lembro que nem te acabamos de pentear! Metade do teu cabelo está todo espetado!” responde a Luciana. E as amigas riem-se entre si como se fossem as únicas no mundo inteiro e pouco mais fosse importante que isso.
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