A Carta (I)

“Estão aqui os 10, bem merecidos minha filha…Lembra-te do esforço que fizeste para os conseguir. Não é o prémio que diz quem tu és mas é a tua vontade que te faz ir mais além. Um passo a cada dia. Não te esqueças não filha?” recomendava a mãe a Luzia, “Nada de bom chega antes do tempo, temos de ser pacientes”. Luzia respondia “Sim minha mãe”, ansiosa por receber os 10 e, mal os recebeu saiu disparada em direcção à porta de tanta excitação. “Filha!” exclamou a mãe de Luzia, “Desculpa mãe! ” respondeu, e dando-lhe dois beijinhos agradeceu “Obrigado! És a melhor mãe do mundo!”.

Ia já a caminho da casa do tio Máquina quando sentiu o cheiro a flores do sabão e lembrou-se das palavras da mãe: “Um passo a cada dia”. Mas a impaciência de escrever ao pai era tanta! Como aguentar?

“Tio Máquina! Tio Máquina! Dá licença?” gritou Luzia à porta de casa batendo as palmas. “Tio Máquina!”. “Sim, já vou!” respondeu uma voz sonolenta de debaixo de um espinheiro do quintal. O senhor Máquina estava a descansar: “Vi logo que só podias ser tu Luzia!” disse-lhe quando a percebeu à porta de casa “Diz-me o que procuras?”. “Papel de carta!” respondeu prontamente Luzia. O senhor Máquina entrou dentro de casa e ouviu-se de for a o remexer de coisas de madeira, latão e vidro. É o senhor Máquina que na aldeia vende as lamparinas, as pilhas de rádio, as agulhas e as linhas para a costura, o papel para as cartas e para os estudantes. Depois o carvão e o petróleo é no senhor Jeremias o do quintal de terra negra. O sal, o açúcar e a farinha de mandioca é na Dona Joaquina, a do quintal de terra branca. O rapé, os rebuçados de mentol e o sabão azul é na casa do tio Baptista, de onde vem a música à noite quando ele pega na guitarra. Às vezes ele toca para Luzia dançar. De dentro de sua casa o Sr. Máquina trouxe uma caixa de lata pintada de pássaros e pétalas prateadas e de lá tirou um bloco de folhas de linhas. “Está aqui! Mas para tanta carta vais precisar de um envelope. Este ofereço-te eu: quando acabares de escrever, dobras o papel e metes aqui dentro. Depois colas e envias. Está bem? São 10.”. “Obrigado tio Máquina. Estão aqui os 10” disse Luzia sem hesitar, à despedida.

Em casa, à luz da lamparina Luzia sentou-se em frente ao bloco de papel com o envelope pronto para meter a sua carta. De for a a luz parecia respirar devagar como se descansasse e as sombras baloiçavam como se esvoaçassem na brisa da noite.

No dia seguinte, no regresso da venda a Luzia entregou a bacia a Luciana e disse às amigas: “Vão andando, já vou ter convosco. Vou só entregar a minha carta”. “Vais onde?” perguntou Susana, “Não me digas que vais até à estrada!” disse Luciana preocupada e acrescentou “É um lugar perigoso! Vão-te levar!”. Luciana queria proibir a amiga mas ela estava determinada a entregar a sua carta: “Tem de ser! Quero que o meu pai tenha notícias nossas e nos venha buscar!”. Era tão importante para Luzia que as amigas não sabiam o que dizer: por um lado tinham medo por outro queriam ajudá-la. Mas, antes que decidissem o que fazer já Luzia tinha deixado para trás a bacia e corria na direcção da estrada: “Eu já volto! Não vai demorar nada!”. “Cuidado! Volta rápido!” gritaram as amigas. E, só de a verem ao longe, já sentiam a sua falta e um aperto por dentro de preocupação.

É um tapete negro como a pele de uma cobra de onde a terra espreita. Às vezes tem buracos que os miúdos se entretêm a remendar durante o dia para pedir uma esmola aos carros e camiões que passam mais velozes que um leão esfomeado. Luzia pôs-se à beira da estrada a acenar com o envelope a quem passava. Estava nervosa. Queria entregar a carta e voltar o mais rapidamente para casa. Também ela sentia já saudade das amigas. Passaram alguns camiões, um ou outro jipe que entre a poeira que levantavam não distinguiam mais que a boca da estrada lá ao fundo para onde se dirigiam. Nenhum viu Luzia. De longe veio um táxi, azul, veloz como um raio e Luzia acenou o mais que pôde. Pensou: “Táxi não pára de certeza… vai directo à cidade. Mas o táxi conhece todos os sítios do mundo onde as pessoas quererão alguma vez ir. De certeza que se lhe entregar a carta para o meu pai ele vai encontrar o caminho!” e desatou a gritar o mais alto que conseguiu: “Pára! Tenho uma carta para entregar ao meu pai! Pára!” e, contra todas as indicações da mãe e das amigas saltou para o meio da estrada a esbracejar e a gritar “Pára! Por favor! Pára!”

Dentro do táxi as pessoas conversavam animadamente entre si e o rádio tocava bem alto. O motorista ia um pouco sonolento da viagem que já era longa e ia distraído. Tinham partido de manhã bem cedo, ainda o sol se espreguiçava timidamente.

“Não vai parar!”, exclamou Luzia assustada e quase não teve tempo de saltar para a berma de novo antes do táxi passar.

A nuvem de pó que o táxi levantou era tão grande que Luzia não parava de tossir. “Não vale a pena… ninguém vai parar…mais vale desistir”, pensou desanimada. Mas, ainda não tinha acabado de tossir quando olhou para trás e viu umas luzes a piscar lá ao fundo. O táxi tinha parado e de dentro saíam mulheres ajeitando as saias e homens que se espreguiçavam. “Parou!”, pensou de novo entusiasmada,“tenho de acreditar. Se quero de verdade entregar esta carta então não posso desistir agora” e desatou a correr na direcção do táxi.

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