Sem saber bem como pedir Luzia apareceu de longe a gritar e a tossir: “Tenho uma carta! Cof… cof… cof… tenho uma… cof…”. As pessoas ficaram meio aturdidas ao verem uma menina aparecer do meio do mato a gritar para elas, sem compreenderem bem porquê. Quando se chegou mais perto o motorista, meio receoso disse-lhe “Não entendo que língua falas rapariga!” e Luzia esforçou-se um pouco mais para se fazer compreender: “Eu disse cof cof! Que tenho uma…cof! Cof! Carta! Carta! É para o meu… cof! Cof! Pai que vive na cidade . Cof! Cof! Cof! Podia fazer o favor de a levar consigo?” conseguiu ela finalmente perguntar-lhe sem se engasgar. Os passageiros olhavam para tão estranha rapariga e uma mulher exclamou: “Queres ver que nesta terra se fala a língua do cof cof?” – não estava a ser nada simpática, um rapaz acrescentou: “Se calhar perdeu o juízo… ou é feitiço”. O motorista disse no gozo: “O melhor é mesmo continuarmos viagem antes que nos lancem a nós um feitiço e fiquemos como ela”. Mas os mais velhos e as mulheres não acharam muita piada e houve mesmo um bébé que, sem perceber nada do que se passava, começou a chorar e, numa grande confusão de braços, pernas e gritos começaram todos a entrar para dentro do táxi e a pedir: “Arranca já motorista, não queremos ficar mais nesta terra de bruxedos”, “Vamos embora!” gritavam as mulheres e já eram dois os bébés que choravam. No meio da confusão, de pernas e braços, de panos enredados, malas, trouxas a entrar Luzia não pensou duas vezes e aproveitou para se esconder debaixo do vestido de uma mulher mais gorda e entrou no taxi para se esconder debaixo de um banco.
O motorista rodou a chave e o escape insuflou uma nuvem cinzenta. Apitou duas vezes e arrancou o mais depressa que pôde. Ria-se para si do pânico dos seus passageiros. Alguém, no último banco resolveu olhar para trás e exclamou: “A moça desapareceu!” e as pessoas começaram a murmurar: “era feitiço, para mim só podia ser feitiço”.
Foi então que começaram as histórias do conhecido da prima do vizinho que disse que… Uma mãe contou logo que outro dia: “Nasceu mesmo um rabo de porco ao meu vizinho por ter pegado uma laranja de uma banca onde passou que não tinha ninguém a vender” e um homem vestido de fato macaco azul que se sentava de frente respondeu que “O filho da prima do meu cunhado que vive no Norte começou a deitar bolas de sabão pela boca por ter bebido uma sopa que um vizinho tinha deixado no quintal enquanto tinha ido dentro de casa procurar uma colher” e a conversa seguia animada a caminho da cidade. Cada qual contava a coisa mais extraordinária que tinha ouvido falar. “E a mana viu mesmo o que aconteceu?”, “Eu não… mas garantem que aconteceu”.
E, debaixo do banco Luzia ia bem calada. De olhos fechados e mão na carta a segurá-la com toda a vontade que tinha de a entregar ao seu pai. Ela pensava, nas fogueiras que acendem toda a noite na cidade e que não deixam que ninguém se perca. Por isso, mesmo que chegasse e fizesse escuro, na cidade veria tudo e conseguiria encontrar caminho. Alguém que lhe explicasse como chegar ao seu pai, para lhe entregar a sua carta.
Ela imaginava tudo de olhos fechados. Mão firme a segurar um tesouro e um sorriso de confiança numa aventura que tem de dar certo.
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