A Galinha

“Có! És tão feia! Có!”, disse alguém com voz de gozo debaixo do banco. Luzia abriu os olhos o mais que pôde mas não viu ninguém. Pensou: “Estou a imaginar vozes na minha cabeça”. Mas voltou a ouvir pouco depois: “És mesmo feia! ró có ró có! Parece que tens um abacaxi na cabeça com esse cabelo por pentear! Có!”. Luzia voltou-se com os olhos mais abrtos que conseguiu: “Ró có ró có! E agora com esses olhos de lagarto parece mesmo que saíste dos infernos moça! Có ró có có có!”.

“Essa galinha não tem juízo!” suspirou uma das passageiras antes de dar um pontapé debaixo do banco o qual por pouco não acertou em Luzia. Foi quando ela se desviou para o lado contrário que deu de caras com o bico de uma galinha espantada que a avisava: “Meninas da tua idade não deviam andar assim despenteadas! Có! Onde é que já se viu? És mais feia que um galo velho zangado! Có!”.

A principío Luzia não conseguiu dizer nada “Estou a ficar maluca se até ouço galinhas a falar!”. “Maluca! Có có ró có! “ disse-lhe a galinha como se lhe adivinhasse os pensamentos e fizesse graça deles.

A passageira que continuava a sentir a agitação de debaixo do banco voltou a lançar o seu pé e a avisar: “Continuas a fazer barulho e acabas mais cedo na panela!”. Luzia desviou-se novamente para o outro lado e pediu em surdina: “Chiu! Ainda vais fazer com que me descubram. Peço-te, por favor! Tenho de chegar à cidade para entregar esta carta ao meu pai!”.

“Có! Có! Có!” desatou a galinha a cacarejar como quem ri de desdenho “Ainda por cima não pagou bilhete! Có! Ró có! Cobrador vem apanhar esta caloteira! Có!”

“Estou a avisar-te” disse a passageira para a galinha, lançando desta vez os dois pés para ver se com um acertava nela. Luzia conseguiu escapar-se a tempo.

“Por favor! Peço-te por tudo o que mais desejares. Já sei! Uma maçaroca fresca!”. Mas a galinha continuou “Có! Có! Cobrador!”. “Por favor”, pediu Luzia, “ por um saco de grão. E um molho de couves!”. A galinha mudou de tom, mas para dizer: “Cá! Cá! Caloteira!”. A passageira avisou: “Já estou a preparar a panela estou-te a dizer galinha tonta” e espetou com os calcanhares por debaixo do assento para lhe tentar acertar.

Luzia estava a ficar sem espaço e com medo de ser descoberta pela tagarelice da galinha e propôs-lhe: “Por favor! Vais fazer com que seja descoberta! E que tal se te der migalhas de pão fresco? Ainda tenho enrolado no meu pano um pedaço de pão que estava a guardar para logo!”. Era difícil negociar com a galinha. Ela parou, meneou a cabeça duas ou três vezes e recomeçou “Có! Có! Cobrador! Olha a… Cá! Cá! Rá! Cá! Caloteira!”. E continuou mais alto: “Migalhas? Có ró có!” disse indignada “Um pão inteiro! Quem sabe um pastel fresquinho” acrescentou rapidamente Luzia.

“Ai!” exclamou a passageira que já se preparava para um último aviso antes de ir buscar a galinha debaixo do banco. “O que dizes?” perguntou mais uma vez Luzia desesperada. “Cá! Cá! Está bem!” e a mulher acertou-lhe finalmente com o calcanhar enquanto pedia desculpa aos outros passageiros: “Estas galinhas malucas, quando lhes dá no tico e teco começarem a armar confusão não vale a pena! São muito confusionistas! Até parecem enfeitiçadas!”. “Có!” suspirou a galinha uma última vez e fechou o bico.

Luzia continuou a explicar-lhe em surdina: “Só tens de manter o bico fechado até chegarmos à cidade. Depois vou à procura do meu pai para lhe entregar esta carta e ele vai-me levar a todos os sítios até àqueles onde há pasteis frescos!”. A viagem prosseguiu.

A galinha perguntou-lhe a certa a altura: “Mas já estiveste na cidade? Sabes como é?”. Luzia disse-lhe que não, era a primeira vez. “Então não vai resultar! Vai ser o caos! Como é que vamos encontrar o teu pai? Vamos-nos perder! E os pastéis, algum outro frango os vai comer!” agoirou a galinha. “Vai correr bem!” assegurou-lhe Luzia e acrescentou “mesmo que cheguemos de noite na cidade há grandes fogueiras que estão acesas toda a noite no alto dos embondeiros mais velhos e ninguém se perde! É bonito, vais ver!”. “Como é que falas de coisas que nunca viste assim? Não acredito em nada do que dizes… só acredito no meu pastel quando o tiver no meu papo” disse-lhe a galinha de uma forma pouco simpática. “Eu não sei, nunca vi, tens razão. Mas contou-me a minha mãe e eu imagino que assim seja. Quando chegarmos vamos descobrir e aí vamos perceber melhor. Mas por agora acredito só e tento imaginar”. “És uma sonhadora, moça! Põe os pés na terra! Nada disso existe! E depois o teu pai… quem te disse que o vais encontrar! Ó meu rico pastel… Vive lá muita gente! Ou então até vive noutra cidade! Há muitas cidades! Sabes que há muitas cidades, não sabes? E tantos pastéis fresquinhos que outros frangos vão comer – mal empregues” insistiu a galinha muito negativa e preocupada. Pareciaum relógio com um ponteiro partido que não avança. “Não fales assim!” pediu-lhe Luzia entristecida “Claro que o vamos encontrar!” assegurou ainda “Pode haver muitas cidades, e muitas pessoas em todas as cidades mas alguém há-de conhecer outro alguém que há-de conhecer o meu pai e nos há-de indicar qual é a rua em que o havemos de o descobrir”.

O táxi seguia rápido na direcção da cidade. Ouvia-se o motor a ronronar como um gato preguiçoso e o barulho da gravilha pisada a levantar a poeira que depois vai assentando no silêncio que fica depois da passagem.

“És maluca! Completamente doida! Como é que te fui dar ouvidos? Tu não fazes a mínima ideia do que vais encontrar nem tão pouco ao que vais! Có! Có! Có! E depois, essas fogueiras que falas são tudo conversa fiada! Não há carvão que chegue em todas as montanhas do mundo para acender todas as noites no alto dos embondeiros mais altos fogueiras que iluminam o caminho. Cá! Cá! Cá!” a galinha estava descontrolada, “Quero o meu pastel! Có! Có! Cobrador! Cá! Cá! Caloteira despenteada! Cá! Cá! Cá!”

“Cala-te!” ordenaram Luzia e a mulher ao mesmo tempo à galinha. E, enquanto uma lhe dava com os calcanhares a outra tapava-lhe o bico com dois dedos. Fez-se silêncio. O motorista avisou: “Se essa galinha continuar a armar confusão fica aí no meio da estrada! Não torno a avisar!”

A galinha começou a ficar vermelha, depois verde e roxa com falta de ar. E, quando não aguentou mais, desatou a espernear e, como se fosse um balão cheio que é largado ao acaso, soltou-se dos dedos de Luzia e voou pelo táxi a bater as asas e a expirar de alívio. Depois começou a saltar de banco em banco e a gritar: “Cá! Cá! Ró có! Cá! Cá!”. Todos estavam estupefactos.

A confusão instalou-se no táxi. A dona tentava apanhar a galinha dizendo: “Galinha maluca, se te apanho corto-te o gasganete! Sete vezes to vou cortar para ver se não cacarejas mais! Anda cá que já tas conto!” O motorista ameaçava: “Vai tudo porta for a: galinha, dona, tudo!” Os mais velhos puxaram das bengalas e tentavam acertar na galinha, os bebés choravam, as mulheres gritavam e os rapazes riam-se da cena e ainda armavam mais confusão.

Subitamente o táxi parou e, com o movimento brusco Luzia foi empurrada de debaixo do banco e ficou à vista de todos.

“O que está ela aqui a fazer?” perguntaram todos ao mesmo tempo. “Foi ela que deitou feitiço à galinha!” acusou a dona que procurava uma explicação que a desculpasse do mau comportamento do animal. O motorista, meio incrédulo, meio impaciente: “Metam a moça e a galinha for a do táxi e vamos embora já!”

E rapidamente as empurraram porta for a e o táxi arrancou deixando para trás uma nuvem de pó e de penas e Luzia com a carta na mão novamente à beira da estrada a caminho da cidade.

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