Amigas

A Luzia gosta muito do cheiro da sua mãe pela manhã, antes de sair para o campo. Cheira a flores, isto é, é sabão que parece deixar flores na pele. A mãe recomenda-lhe antes de sair: “Nada de brincar na Estrada, nunca se sabe quem nela vai chegar para te pegar!” e a Luzia pensa “é bom o cheiro da mãe” sem prestar muita atenção ao que ela diz. E a mãe despede-se ainda o sol não espreita por cima da montanha.

Muitas vezes Luzia fica a pensar na Estrada. Ela parece não ter fim.

“Um dia pode chegar o meu pai para nos levar à cidade ver as fogueiras que se acendem no cimo dos embondeiros mais velhos”, diz a Luzia às amigas, e elas riem-se desconfiadas e recomendam-lhe: “Penteia-te Luzia, arranja a tua saia e deixa-te de sonhos senão nenhum rapaz vai demorar os olhos e as falas em ti”. Luciana pede-lhe “Deixa-me trançar-te sim? Posso fazer-te uns puxinhos com estas contas azuis e laranjas”. “Vais brilhar com tanta banga!” exclama a Susana enquanto lhe põe as mãos no cabelo e lhe puxa um ou outro caracol na brincadeira. “Larga-me Susana! Não abuses!” responde-lhe Luzia enquanto afasta as duas amigas. “Vocês perdem tempo com coisas tão pequenas! Não vos interessa conhecer mais? Há tanto para aprender e vocês só pensam em namoro ?!”

Todos os dias as amigas conseguem arreliar Luzia e divertem-se a dançar e cantar em torno dela:

O mundo inteiro não vai chegar para fazer Luzia feliz

Um dia num comboio vai entrar e partir para onde quis

Ela quer ver o mundo ao avesso a girar

Vai descobrir o pólo norte no sul e onde o sol se vai deitar

Mas só isso não vai bastar chegando lá ela vai partir

À lua não vai chegar só mesmo se boleia não conseguir

O pior vai ser quando voltar…

Ela verá que só vai restar….

Um bode velho p’ra casar!

Esta canção deixa Luzia furiosa! Ela corre atrás das amigas que fogem a rir e a cantar: “Ela verá que só vai restar um bode velho p’ra casar! Ela verá que só vai restar um bode velho p’ra casar!” repetem elas enquanto correm. E sobem às árvores, escondem-se atrás das casas dos vizinhos, dentro da capoeira e, quando Luzia as descobre gritam e fogem a correr por cima dos panos que secam nos quintais, dos fogareiros que se apagaram com o chegar da manhã e dos cestos vazios deixados à porta das casas. Elas tentam procurar abrigo. E apontam para as galinhas que fogem de susto e gritam : “Só vai restar uma galo velho p’ra casar!” e espantam os porcos para enganar Luzia que as persegue e gritam: “Só vai restar um velho porco p’ra casar!” até que ela se cansa de perseguir as duas e as deixa aproximarem-se mas só se pedirem desculpa com jeitinho. Elas querem pentear Luzia.

As duas amigas gostam de penteá-la antes de irem juntas para a venda. Às vezes Susana ainda começa a assobiar baixinho: “fiu fiu fiu … p’ra casar” mas a Luciana interrompe-a rapidamente: “Já chega agora! Vamo-nos arranjar e pegar nas bacias para ir vender junto à linha. Não tarda nada já o sol passou acima da casa do tio Máquina e o comboio vai longe…”. “Ai!”, responde Luzia, “ já estamos atrasadas” e levanta-se, com o cabelo meio trançado, meio espetado como um ouriço. As amigas riem-se: “Deixa acabar Luzia!”. “Vamos só mesmo assim”, responde Luzia enquanto pega na bacia, “tenho que vender tudo hoje para fazer a minha mãe feliz quando chegar logo a casa e me dar os 10 para comprar carta no tio Máquina”. Luciana corrige-a: “Não é comprar carta tonta, é comprar papel de carta”, “Deixa-me pentear-te Luzia” acrescenta Susana. “Vamos só, já chega de vaidades!” responde Luzia e põe à cabeça a bacia de cana de açúcar enquanto se põe a caminho.

A Venda

Susana e Luciana pegam nas suas bacias de coco, banana e maçaroca e seguem Luzia. Elas estão curiosas: “E vais escrever a quem?” perguntam-lhe. “Ao meu pai”, responde Luzia de olhos a brilhar, “a pedir que ele volte o mais rápido que consiga para me levar e à minha mãe a ver a cidade e as fogueiras que brilham toda a noite nos ramos dos embondeiros, a conhecer as pessoas que lá habitam, o mercado grande, a paragem dos autocarros e dos táxis…”. “Vais conhecer o presidente?” pergunta Luciana. “Se eu pudesse, escrevia era ao Nereu a pedir que ele me goste” suspira Susana, “Não se diz pedir que ele me goste sua cabeça oca”, corrige de imediato Luciana, “é pedir namoro” e desatam as três a rir do engano da Susana. De repente, do lado da ponte, escutam o apito do comboio: “Apressem-se – já oiço o comboio a chegar” diz Luzia, nervosa, e todas se ajudam a carregar as bacias o mais rápido possível para chegarem a tempo de venderem aos passageiros o que carregam.

Chega o comboio: cor de areia e telhados vermelhos. Vem tanta gente à janela! Algumas pessoas sentam-se à porta dos vagões a abanar as pernas, ansiosas por pisar terra. São muitas as diferentes vozes e mil as conversas que estoiram quando o comboio pára e o fiscal de linha baixa a bandeira. De dentro todos procuram quem está na estação, o que há para comprar, quais são as novidades e quem está apeado espera que o chamem ou que consiga reconhecer alguém que viaja e pôr a conversa em dia.

Às vezes encontram-se familiares que já não se viam há muito tempo, amigos de infância que o tempo afastou e a festa é grande. Outras vezes mete-se conversa só por alguns instantes.

As amigas, de bacia à cabeça percorrem o apeeadeiro ao lado das carruagens a apregoar “cana!”, “olha o coco!”, “está aqui banana!” e, tal como elas outras tantas raparigas e rapazes passeiam alguma coisa para vender: maçaroca, saquinhos de água, rebuçados e chupas, corta-unhas e pilhas para o rádio. Os mais velhos ficam sentados à espera que alguém queira comprar um saco de carvão, uma galinha para levar para casa, com sorte um porco ou uma cabra são vendidos e em dias especiais alguém veio de longe para levar um boi que tinha encomendado há muito tempo: ainda os pés de milho não tinham rebentado. Os animais sobem assustados para os vagões e todos ajudam e a confusão é grande. Ouvem-se os rádios a tocar, os pregões e as conversas, o respirar mecânico do comboio.

São só cinco minutos em que tudo se tem de vender para em casa haver um pouco de dinheiro para pagar a escola, um saco de sal, os panos da mãe e dos filhos e, se sobrar algum fica debaixo da esteira para um dia em que seja preciso. A Luzia quer mesmo é vender tudo e é a melhor de todas a convencer os viajantes a comprar o que traz: “Esta cana é bem docinha, melhor não há não! Nem as nuvens são tão doces como esta que vendo senhores!” e as pessoas bem-dispostas a pensar em nuvens e em coisas doces apressam-se a comprar. A mãe é a primeira a reconhecer as suas qualidades e por isso prometeu-lhe: “Luzia se esta semana venderes tanto como nas outras podes tirar 10 da venda e comprar papel de carta para escrever ao teu pai”.

Mas o comboio já está a apitar de novo e os que se apearam correm de novo para as carruagens, empurram os sacos e animais que compraram; as mulheres que vão viajar com os filhos atiram as grandes trouxas antes de subirem e todos se ajudam para que ninguém fique. O fiscal apita do cais e, quando o comboio arranca Luzia ainda está a vender um último pedaço de cana: “Está aqui senhor! São 5!”, o homem procura nos bolsos a nota e estende-a pela janela a Luzia: “Só tenho 10 moça. Dá-me troco, sim?” Luzia corre atrás do comboio e salta para apanhar a nota, procura atabalhoadamente no rodilho de pano uma nota de troco, sem nunca parar. Para ir mais rápido deixa a bacia para trás e salta, mesmo antes do apeadeiro chegar ao fim para dar o troco ao cliente: “Obrigado moça!” despede-se o senhor já o comboio está a virar lá ao fundo da linha.

Ufa!” suspira Luzia. Quase nem deu tempo para as despedidas.

É agora altura das três amigas se reunirem de novo e contarem umas às outras como correu. Luzia está cansada mas contente: “Consegui vender tudo – a minha mãe vai ficar feliz”, “E vais poder mandar uma carta ao teu pai”, acrescenta Luciana. Susana oferece um coco que lhe restou: “Querem partilhar para celebrarmos?” As três sentam-se no cais a escutar o comboio que já vai longe e deixa para trás o som da montanha cheio de pássaros, cores e mistérios. Enquanto comem o coco fresco saboreiam a felicidade de estar entre amigas.

A Susana ainda suspira: “Se eu pudesse escrevia ao Nereu… a dizer que me goste…”, “Não sejas tontas miúda, ainda és muito nova para essas coisas”, responde-lhe Luzia. “Olha só, agora é que me lembro que nem te acabamos de pentear! Metade do teu cabelo está todo espetado!” responde a Luciana. E as amigas riem-se entre si como se fossem as únicas no mundo inteiro e pouco mais fosse importante que isso.

A Carta (I)

“Estão aqui os 10, bem merecidos minha filha…Lembra-te do esforço que fizeste para os conseguir. Não é o prémio que diz quem tu és mas é a tua vontade que te faz ir mais além. Um passo a cada dia. Não te esqueças não filha?” recomendava a mãe a Luzia, “Nada de bom chega antes do tempo, temos de ser pacientes”. Luzia respondia “Sim minha mãe”, ansiosa por receber os 10 e, mal os recebeu saiu disparada em direcção à porta de tanta excitação. “Filha!” exclamou a mãe de Luzia, “Desculpa mãe! ” respondeu, e dando-lhe dois beijinhos agradeceu “Obrigado! És a melhor mãe do mundo!”.

Ia já a caminho da casa do tio Máquina quando sentiu o cheiro a flores do sabão e lembrou-se das palavras da mãe: “Um passo a cada dia”. Mas a impaciência de escrever ao pai era tanta! Como aguentar?

“Tio Máquina! Tio Máquina! Dá licença?” gritou Luzia à porta de casa batendo as palmas. “Tio Máquina!”. “Sim, já vou!” respondeu uma voz sonolenta de debaixo de um espinheiro do quintal. O senhor Máquina estava a descansar: “Vi logo que só podias ser tu Luzia!” disse-lhe quando a percebeu à porta de casa “Diz-me o que procuras?”. “Papel de carta!” respondeu prontamente Luzia. O senhor Máquina entrou dentro de casa e ouviu-se de for a o remexer de coisas de madeira, latão e vidro. É o senhor Máquina que na aldeia vende as lamparinas, as pilhas de rádio, as agulhas e as linhas para a costura, o papel para as cartas e para os estudantes. Depois o carvão e o petróleo é no senhor Jeremias o do quintal de terra negra. O sal, o açúcar e a farinha de mandioca é na Dona Joaquina, a do quintal de terra branca. O rapé, os rebuçados de mentol e o sabão azul é na casa do tio Baptista, de onde vem a música à noite quando ele pega na guitarra. Às vezes ele toca para Luzia dançar. De dentro de sua casa o Sr. Máquina trouxe uma caixa de lata pintada de pássaros e pétalas prateadas e de lá tirou um bloco de folhas de linhas. “Está aqui! Mas para tanta carta vais precisar de um envelope. Este ofereço-te eu: quando acabares de escrever, dobras o papel e metes aqui dentro. Depois colas e envias. Está bem? São 10.”. “Obrigado tio Máquina. Estão aqui os 10” disse Luzia sem hesitar, à despedida.

Em casa, à luz da lamparina Luzia sentou-se em frente ao bloco de papel com o envelope pronto para meter a sua carta. De for a a luz parecia respirar devagar como se descansasse e as sombras baloiçavam como se esvoaçassem na brisa da noite.

No dia seguinte, no regresso da venda a Luzia entregou a bacia a Luciana e disse às amigas: “Vão andando, já vou ter convosco. Vou só entregar a minha carta”. “Vais onde?” perguntou Susana, “Não me digas que vais até à estrada!” disse Luciana preocupada e acrescentou “É um lugar perigoso! Vão-te levar!”. Luciana queria proibir a amiga mas ela estava determinada a entregar a sua carta: “Tem de ser! Quero que o meu pai tenha notícias nossas e nos venha buscar!”. Era tão importante para Luzia que as amigas não sabiam o que dizer: por um lado tinham medo por outro queriam ajudá-la. Mas, antes que decidissem o que fazer já Luzia tinha deixado para trás a bacia e corria na direcção da estrada: “Eu já volto! Não vai demorar nada!”. “Cuidado! Volta rápido!” gritaram as amigas. E, só de a verem ao longe, já sentiam a sua falta e um aperto por dentro de preocupação.

É um tapete negro como a pele de uma cobra de onde a terra espreita. Às vezes tem buracos que os miúdos se entretêm a remendar durante o dia para pedir uma esmola aos carros e camiões que passam mais velozes que um leão esfomeado. Luzia pôs-se à beira da estrada a acenar com o envelope a quem passava. Estava nervosa. Queria entregar a carta e voltar o mais rapidamente para casa. Também ela sentia já saudade das amigas. Passaram alguns camiões, um ou outro jipe que entre a poeira que levantavam não distinguiam mais que a boca da estrada lá ao fundo para onde se dirigiam. Nenhum viu Luzia. De longe veio um táxi, azul, veloz como um raio e Luzia acenou o mais que pôde. Pensou: “Táxi não pára de certeza… vai directo à cidade. Mas o táxi conhece todos os sítios do mundo onde as pessoas quererão alguma vez ir. De certeza que se lhe entregar a carta para o meu pai ele vai encontrar o caminho!” e desatou a gritar o mais alto que conseguiu: “Pára! Tenho uma carta para entregar ao meu pai! Pára!” e, contra todas as indicações da mãe e das amigas saltou para o meio da estrada a esbracejar e a gritar “Pára! Por favor! Pára!”

Dentro do táxi as pessoas conversavam animadamente entre si e o rádio tocava bem alto. O motorista ia um pouco sonolento da viagem que já era longa e ia distraído. Tinham partido de manhã bem cedo, ainda o sol se espreguiçava timidamente.

“Não vai parar!”, exclamou Luzia assustada e quase não teve tempo de saltar para a berma de novo antes do táxi passar.

A nuvem de pó que o táxi levantou era tão grande que Luzia não parava de tossir. “Não vale a pena… ninguém vai parar…mais vale desistir”, pensou desanimada. Mas, ainda não tinha acabado de tossir quando olhou para trás e viu umas luzes a piscar lá ao fundo. O táxi tinha parado e de dentro saíam mulheres ajeitando as saias e homens que se espreguiçavam. “Parou!”, pensou de novo entusiasmada,“tenho de acreditar. Se quero de verdade entregar esta carta então não posso desistir agora” e desatou a correr na direcção do táxi.

A boleia

Sem saber bem como pedir Luzia apareceu de longe a gritar e a tossir: “Tenho uma carta! Cof… cof… cof… tenho uma… cof…”. As pessoas ficaram meio aturdidas ao verem uma menina aparecer do meio do mato a gritar para elas, sem compreenderem bem porquê. Quando se chegou mais perto o motorista, meio receoso disse-lhe “Não entendo que língua falas rapariga!” e Luzia esforçou-se um pouco mais para se fazer compreender: “Eu disse cof cof! Que tenho uma…cof! Cof! Carta! Carta! É para o meu… cof! Cof! Pai que vive na cidade . Cof! Cof! Cof! Podia fazer o favor de a levar consigo?” conseguiu ela finalmente perguntar-lhe sem se engasgar. Os passageiros olhavam para tão estranha rapariga e uma mulher exclamou: “Queres ver que nesta terra se fala a língua do cof cof?” – não estava a ser nada simpática, um rapaz acrescentou: “Se calhar perdeu o juízo… ou é feitiço”. O motorista disse no gozo: “O melhor é mesmo continuarmos viagem antes que nos lancem a nós um feitiço e fiquemos como ela”. Mas os mais velhos e as mulheres não acharam muita piada e houve mesmo um bébé que, sem perceber nada do que se passava, começou a chorar e, numa grande confusão de braços, pernas e gritos começaram todos a entrar para dentro do táxi e a pedir: “Arranca já motorista, não queremos ficar mais nesta terra de bruxedos”, “Vamos embora!” gritavam as mulheres e já eram dois os bébés que choravam. No meio da confusão, de pernas e braços, de panos enredados, malas, trouxas a entrar Luzia não pensou duas vezes e aproveitou para se esconder debaixo do vestido de uma mulher mais gorda e entrou no taxi para se esconder debaixo de um banco.

O motorista rodou a chave e o escape insuflou uma nuvem cinzenta. Apitou duas vezes e arrancou o mais depressa que pôde. Ria-se para si do pânico dos seus passageiros. Alguém, no último banco resolveu olhar para trás e exclamou: “A moça desapareceu!” e as pessoas começaram a murmurar: “era feitiço, para mim só podia ser feitiço”.

Foi então que começaram as histórias do conhecido da prima do vizinho que disse que… Uma mãe contou logo que outro dia: “Nasceu mesmo um rabo de porco ao meu vizinho por ter pegado uma laranja de uma banca onde passou que não tinha ninguém a vender” e um homem vestido de fato macaco azul que se sentava de frente respondeu que “O filho da prima do meu cunhado que vive no Norte começou a deitar bolas de sabão pela boca por ter bebido uma sopa que um vizinho tinha deixado no quintal enquanto tinha ido dentro de casa procurar uma colher” e a conversa seguia animada a caminho da cidade. Cada qual contava a coisa mais extraordinária que tinha ouvido falar. “E a mana viu mesmo o que aconteceu?”, “Eu não… mas garantem que aconteceu”.

E, debaixo do banco Luzia ia bem calada. De olhos fechados e mão na carta a segurá-la com toda a vontade que tinha de a entregar ao seu pai. Ela pensava, nas fogueiras que acendem toda a noite na cidade e que não deixam que ninguém se perca. Por isso, mesmo que chegasse e fizesse escuro, na cidade veria tudo e conseguiria encontrar caminho. Alguém que lhe explicasse como chegar ao seu pai, para lhe entregar a sua carta.

Ela imaginava tudo de olhos fechados. Mão firme a segurar um tesouro e um sorriso de confiança numa aventura que tem de dar certo.

A Galinha

“Có! És tão feia! Có!”, disse alguém com voz de gozo debaixo do banco. Luzia abriu os olhos o mais que pôde mas não viu ninguém. Pensou: “Estou a imaginar vozes na minha cabeça”. Mas voltou a ouvir pouco depois: “És mesmo feia! ró có ró có! Parece que tens um abacaxi na cabeça com esse cabelo por pentear! Có!”. Luzia voltou-se com os olhos mais abrtos que conseguiu: “Ró có ró có! E agora com esses olhos de lagarto parece mesmo que saíste dos infernos moça! Có ró có có có!”.

“Essa galinha não tem juízo!” suspirou uma das passageiras antes de dar um pontapé debaixo do banco o qual por pouco não acertou em Luzia. Foi quando ela se desviou para o lado contrário que deu de caras com o bico de uma galinha espantada que a avisava: “Meninas da tua idade não deviam andar assim despenteadas! Có! Onde é que já se viu? És mais feia que um galo velho zangado! Có!”.

A principío Luzia não conseguiu dizer nada “Estou a ficar maluca se até ouço galinhas a falar!”. “Maluca! Có có ró có! “ disse-lhe a galinha como se lhe adivinhasse os pensamentos e fizesse graça deles.

A passageira que continuava a sentir a agitação de debaixo do banco voltou a lançar o seu pé e a avisar: “Continuas a fazer barulho e acabas mais cedo na panela!”. Luzia desviou-se novamente para o outro lado e pediu em surdina: “Chiu! Ainda vais fazer com que me descubram. Peço-te, por favor! Tenho de chegar à cidade para entregar esta carta ao meu pai!”.

“Có! Có! Có!” desatou a galinha a cacarejar como quem ri de desdenho “Ainda por cima não pagou bilhete! Có! Ró có! Cobrador vem apanhar esta caloteira! Có!”

“Estou a avisar-te” disse a passageira para a galinha, lançando desta vez os dois pés para ver se com um acertava nela. Luzia conseguiu escapar-se a tempo.

“Por favor! Peço-te por tudo o que mais desejares. Já sei! Uma maçaroca fresca!”. Mas a galinha continuou “Có! Có! Cobrador!”. “Por favor”, pediu Luzia, “ por um saco de grão. E um molho de couves!”. A galinha mudou de tom, mas para dizer: “Cá! Cá! Caloteira!”. A passageira avisou: “Já estou a preparar a panela estou-te a dizer galinha tonta” e espetou com os calcanhares por debaixo do assento para lhe tentar acertar.

Luzia estava a ficar sem espaço e com medo de ser descoberta pela tagarelice da galinha e propôs-lhe: “Por favor! Vais fazer com que seja descoberta! E que tal se te der migalhas de pão fresco? Ainda tenho enrolado no meu pano um pedaço de pão que estava a guardar para logo!”. Era difícil negociar com a galinha. Ela parou, meneou a cabeça duas ou três vezes e recomeçou “Có! Có! Cobrador! Olha a… Cá! Cá! Rá! Cá! Caloteira!”. E continuou mais alto: “Migalhas? Có ró có!” disse indignada “Um pão inteiro! Quem sabe um pastel fresquinho” acrescentou rapidamente Luzia.

“Ai!” exclamou a passageira que já se preparava para um último aviso antes de ir buscar a galinha debaixo do banco. “O que dizes?” perguntou mais uma vez Luzia desesperada. “Cá! Cá! Está bem!” e a mulher acertou-lhe finalmente com o calcanhar enquanto pedia desculpa aos outros passageiros: “Estas galinhas malucas, quando lhes dá no tico e teco começarem a armar confusão não vale a pena! São muito confusionistas! Até parecem enfeitiçadas!”. “Có!” suspirou a galinha uma última vez e fechou o bico.

Luzia continuou a explicar-lhe em surdina: “Só tens de manter o bico fechado até chegarmos à cidade. Depois vou à procura do meu pai para lhe entregar esta carta e ele vai-me levar a todos os sítios até àqueles onde há pasteis frescos!”. A viagem prosseguiu.

A galinha perguntou-lhe a certa a altura: “Mas já estiveste na cidade? Sabes como é?”. Luzia disse-lhe que não, era a primeira vez. “Então não vai resultar! Vai ser o caos! Como é que vamos encontrar o teu pai? Vamos-nos perder! E os pastéis, algum outro frango os vai comer!” agoirou a galinha. “Vai correr bem!” assegurou-lhe Luzia e acrescentou “mesmo que cheguemos de noite na cidade há grandes fogueiras que estão acesas toda a noite no alto dos embondeiros mais velhos e ninguém se perde! É bonito, vais ver!”. “Como é que falas de coisas que nunca viste assim? Não acredito em nada do que dizes… só acredito no meu pastel quando o tiver no meu papo” disse-lhe a galinha de uma forma pouco simpática. “Eu não sei, nunca vi, tens razão. Mas contou-me a minha mãe e eu imagino que assim seja. Quando chegarmos vamos descobrir e aí vamos perceber melhor. Mas por agora acredito só e tento imaginar”. “És uma sonhadora, moça! Põe os pés na terra! Nada disso existe! E depois o teu pai… quem te disse que o vais encontrar! Ó meu rico pastel… Vive lá muita gente! Ou então até vive noutra cidade! Há muitas cidades! Sabes que há muitas cidades, não sabes? E tantos pastéis fresquinhos que outros frangos vão comer – mal empregues” insistiu a galinha muito negativa e preocupada. Pareciaum relógio com um ponteiro partido que não avança. “Não fales assim!” pediu-lhe Luzia entristecida “Claro que o vamos encontrar!” assegurou ainda “Pode haver muitas cidades, e muitas pessoas em todas as cidades mas alguém há-de conhecer outro alguém que há-de conhecer o meu pai e nos há-de indicar qual é a rua em que o havemos de o descobrir”.

O táxi seguia rápido na direcção da cidade. Ouvia-se o motor a ronronar como um gato preguiçoso e o barulho da gravilha pisada a levantar a poeira que depois vai assentando no silêncio que fica depois da passagem.

“És maluca! Completamente doida! Como é que te fui dar ouvidos? Tu não fazes a mínima ideia do que vais encontrar nem tão pouco ao que vais! Có! Có! Có! E depois, essas fogueiras que falas são tudo conversa fiada! Não há carvão que chegue em todas as montanhas do mundo para acender todas as noites no alto dos embondeiros mais altos fogueiras que iluminam o caminho. Cá! Cá! Cá!” a galinha estava descontrolada, “Quero o meu pastel! Có! Có! Cobrador! Cá! Cá! Caloteira despenteada! Cá! Cá! Cá!”

“Cala-te!” ordenaram Luzia e a mulher ao mesmo tempo à galinha. E, enquanto uma lhe dava com os calcanhares a outra tapava-lhe o bico com dois dedos. Fez-se silêncio. O motorista avisou: “Se essa galinha continuar a armar confusão fica aí no meio da estrada! Não torno a avisar!”

A galinha começou a ficar vermelha, depois verde e roxa com falta de ar. E, quando não aguentou mais, desatou a espernear e, como se fosse um balão cheio que é largado ao acaso, soltou-se dos dedos de Luzia e voou pelo táxi a bater as asas e a expirar de alívio. Depois começou a saltar de banco em banco e a gritar: “Cá! Cá! Ró có! Cá! Cá!”. Todos estavam estupefactos.

A confusão instalou-se no táxi. A dona tentava apanhar a galinha dizendo: “Galinha maluca, se te apanho corto-te o gasganete! Sete vezes to vou cortar para ver se não cacarejas mais! Anda cá que já tas conto!” O motorista ameaçava: “Vai tudo porta for a: galinha, dona, tudo!” Os mais velhos puxaram das bengalas e tentavam acertar na galinha, os bebés choravam, as mulheres gritavam e os rapazes riam-se da cena e ainda armavam mais confusão.

Subitamente o táxi parou e, com o movimento brusco Luzia foi empurrada de debaixo do banco e ficou à vista de todos.

“O que está ela aqui a fazer?” perguntaram todos ao mesmo tempo. “Foi ela que deitou feitiço à galinha!” acusou a dona que procurava uma explicação que a desculpasse do mau comportamento do animal. O motorista, meio incrédulo, meio impaciente: “Metam a moça e a galinha for a do táxi e vamos embora já!”

E rapidamente as empurraram porta for a e o táxi arrancou deixando para trás uma nuvem de pó e de penas e Luzia com a carta na mão novamente à beira da estrada a caminho da cidade.

Os Terríveis

A galinha parecia ter enlouquecido, não parava de cacarejar e estender as asas, sempre de um lado para o outro. Retorcia o pescoço e revirava os olhos enquanto se lamentava: “Já sabia mal a vi! Fui-me meter em grandes sarilhos! Cá rá cá! E agora outro frango vai ficar com o meu pastel! Có!” Entretanto Luzia levantara-se, sacudira o pó e olhava a estrada. Lá ao longe viam-se casas e um pouco mais à frente o que pareciam ser troncos enormes mas sem ramos nem folhas. Porém estavam ainda um pouco longe. “Parece-me que vejo a cidade lá ao fundo! Que bom! Temos de lá chegar antes que a noite nos abrace”. “Vamos, deixa-te dessas coisas, parece que ficaste gágá” repreendeu a galinha mas Luzia não lhe ligou e acrescentou no gozo “Ficas ou vens? Pode ser que ainda arranjemos pastéis frescos quando lá chegarmos. Eu estou a ir” e pôs-se a caminho. “Cá!” respondeu-lhe a galinha de desprezo, mas ficou a pensar nos pastéis. Luzia já ia à frente quando avisou a galinha: “A noite traz as raposas à espreita por detrás da luz da lua! Cuidado!”. A galinha olhou para trás e viu o sol que ia baixo – arregalou os olhos e desatou a correr assustada de encontro a Luzia: “Não me deixes aqui! Cá!”.

“Eu sabia que vinhas!” disse-lhe Luzia quando a viu ao seu lado quase sem conseguir respirar depois da corrida. Depois acrescentou “apesar de seres assim doida e com miolos de pastel és engraçada. Gágá mas engraçada. Já sei! A partir de agora vou-te chamar Gagalinha”. “Cá! És maluca!” repontou a Gagalinha, “eu só vou por causa do pastel!” e seguiram caminho.

Iam a meio quando uns arbustos se remexeram na berma. Luzia aproveitou para brincar com a Gagalinha: “Eu avisei-te! Se não nos despachamos para alcançar a cidade as raposas ficam atrevidas e põem-se a espreitar atrás dos raios de luar”. “Cá!” exclamou assustada a Gagalinha e, apressando o passo dizia-lhe: “Vamos, despacha-te! Có ró có! Có! Que a miúda é preguiçosa! Os pastéis estão a ganhar pó! Vamos mais rápido! Cá cá cá!”

O barulho voltou-se a repetir mais a frente. Luzia que estava habituada aos barulhos da mata ria-se por dentro ao poder aproveitar a ocasião para brincar com a Gagalinha e disse-lhe em voz de falsete: “Raposa!”. A Gagalinha deu um salto: “Có! Não chames o azar miúda!” e apressou o passo ainda mais – até esticava o pescoço para ver se chegava mais cedo. Luzia ria-se.

Ia Luzia neste gozo à galinha quando o barulho do mato se tornou mais forte e saltaram para a berma da estrada quatro rapazes vestidos com umas roupas estranhas: um tinha umas cuecas por cima de uns calções esfiapados e um autocolante em cada orelha; outro trazia um resto de um pneu à cabeça a fazer de cabeleira e usava uns sapatos sem sola de onde espreitavam os dedos dos pés quando andava – vinha de tronco nu e camisola atada à cintura; o terceiro era o mais alto e o que melhor estava vestido mas trazia a cara pintada com uns riscos brancos e de longe cheirava aos rebuçados de mentol dos que às vezes se vendiam na estação do comboio, era tão magrinho – tinha enfiado tantos elásticos no pulso que lhe chegavam ao cotovelo; e o quarto…bem, o quarto metia medo ao susto, com um colete de lata velha por cima de um saco antigo de arroz que lhe servia de túnica e, no olho direito, trazia o fundo de uma garrafa de gasosa a fazer de óculo – era o mais baixo de todos.

Vinham os quatro a dançar e a cantar e puseram-se de volta de Luzia: um batucava nas latas do outro, o mais alto cantava e outro dançava consoante a letra da canção. Luzia deu um passo atrás e a Gagalinha estacou hirta e acabou por desmaiar de susto.

O rapaz de pneu à cabeça dançava enquanto o mais alto cantava:

“É cara feia! É cara feia! Nós somos o bando terrível

Na beira da estrada

E estamos aqui para fazer uma cara horrível

A quem passa sem dizer nada

Agora vais conhecer o Kafunhonho e a sua cara feia!

É cara feia! É cara feia!”

E o rapaz, que devia ser conhecido por Kafunhonho avançou para o centro e começou a dançar! Parecia partir-se todo tão magricelas era. Esta compenetradíssimo em dançar o que o amigo cantava:

“Ele nasceu na noite mais escura do inverno

As suas tias desmaiaram quando viram sua cara feia

Vinha c om sede de quem saiu do inferno

Mas não havia água e só encontrou petróleo do candeeiro

Bebeu – pegou fogo – ficou bem preta sua cara feia

É Kafunhonho! É Kafunhonho!

Faz de morto agora e volta para onde vieste!”

E o Kafunhonho caiu morto no chão e deslizou para trás como se fosse uma minhoca a regressar à sua toca. Mas a música deles não parava:

“Mas já aí vem o Vandame rei da capoeira

Ele sabe kung-fu e karaté, ele bateu todos os tching-tchang-tchung

Ele é barra, vais ficar sem maneira

Vejam só ele está a dar, ele já não consegue parar,

É uma máquina de chapar, vejam só ele vai te amassar!”

E o rapaz das cuecas por cima dos calções, conhecido por Vandame entrava a fazer truques de luta enquanto dançava, saltava, fazia rodas, pinos e rotativos.

“Se não tem medo, você vai ter respeito

Se não respeita, nós vamos te ensinar

É que nesta dança o Vandame tá a reinar

Se não entras na onda ele vai-te disciplinar

Até os bosses voltam atrás se o vêm passar

É o Vandame! É o Vandame! Dá-lhe agora!

Faz de aleijado e volta para trás!”

E o tal de Vandame, fingindo ter sido atingido por um golpe finge estar aleijado e volta aos saltos para trás, sempre ao ritmo da batida.

“Só restam dois agora é o Paizinho,

Esse de luneta é o meu kamba sabichão,

É ele quem te vai pôr a questão,

Nem a professora lá na escola te vai ajudar,

É um quebra-cabeças díficil de decifrar

Todos têm medo de nos vir a encontrar

Porque depois entro eu, sou o Jamba a matar

Sou este aqui a comandar este kuduro

Jamba é boss vai decidir o teu futuro

Um dia aqui o outro no Mussulo,

Jamba é rei e vai te perguntar – Agora!”

E a batida parou.

Só se ouviam os grilos que trazem o início da noite e uma brisa quente a enrolar-se no mato.

O Jamba avançou na direcção de Luzia que não se mexeu. Fez-se silêncio. Os outros três olhavam muito sérios de braços cruzados. “Como te chamas?” perguntou. “Luzia” disse ela baixinho. “Vais onde dona Luzia?” perguntou a seguir. Mas ela não respondeu logo. Levou a mão ao bolso e sentiu o papel da carta por entregar e agarrou-a com mais força. Finalmente respondeu: “Vou à cidade ter com o meu pai”. “Quem é o teu pai? É boss ou é desses tios que puxam o kangulo?” perguntou o Jamba. Luzia não sabia o que era o kangulo nem o que era um boss parecia que o rapaz falava estrangeiro às vezes. Para além disso começava a ficar impaciente com estas perguntas todas e começou a andar e a dizer: “Não sei. Agora preciso passar, dá licença sim?”.

Mas o Jamba pôs-se à frente e os outros três deram um passo em frente fechando mais o círculo: “Como não sabes? Ou não queres dizer? Vou chamar o Kafunhonho – cara feia? Ou talvez o Vandame?” disse o Jamba com a cara fechada, de quem está a comandar um pelotão. Depois acrescentou “Porque não estás com o teu pai? Estás perdida?” Luzia respondeu: “Não sei, não o conheço, vou só à procura dele” acabou por revelar Luzia e depois desabafou: “Nunca estive na cidade”.

Jamba parou e disse: “Fica quieta moça – nenhum movimento suspeito! O bando dos Terríveis vai decidir”. A Gagalinha acordou nesse instante e ainda meio zonza disse “Cá! Luzia, tanto pó faz-me sentir mal! Estou a precisar de uma maçaroca! Cá! Pareceu-me ter visto um diabo dos infernos!” Foi quando o Kafunhonho, cara feia se chegou por trás dela e lhe disse perto do ouvido: “Bu!” e a Gagalinha voltou a desmaiar de susto.

Três dos terríveis discutiam um pouco atabalhoadamente: Jamba, Kafunhonho e Vandame até que a certa altura perguntaram ao Paizinho. “Como é que estás a ver a situação na tua luneta?” Ele ajeitou o seu monóculo de fundo de garrafa, isto é, a lente que faz ver as coisas do tamnho que elas são e disse: “Ela fala verdade”. E Jamba disse: “Então vamos ajudá-la! Ela vem connosco.” mas Vandame não estava contente: “Ela é moça não pode vir com os Terríveis!” e o Kafunhonho acrescentou: ”Vão se rir de nós quando nos virem com ela”. Jamba pensou e perguntou : “Ela precisa de ajuda, não conhece a cidade, ainda a vão pegar. Os Terríveis também estão aí para ajudar ou não?” Eles pensaram e assentiram que sim e o Jamba continuou: “Então é verdade que ela é moça e os Terríveis têm de ser os mais feios do bairro, por isso temos de lhe arranjar um disfarce, certo?” Eles pensaram e acenaram que sim novamente. “Hoje vamos levá-la e antes de entrarmos na cidade disfarçamos a moça” disse Jamba. Depois olhou para trás para ela e virou-se novamente. Luzia esperava a decisão do grupo. “Vejam só até não está mal – ela já tem meio cabelo no ar, parece saída da casa dos malucos, não vai ser difícil passar por Terrível” e os outros olharam todos para ela. Luzia viu-os a olharem todos ao mesmo tempo e ansiou saber a decisão final.

Todos se voltaram novamente uns para os outros e continuaram a discutir. Luzia olhava agora a cidade que começava a brilhar no final do dia. Pareciam caixotes, muitos a encher o horizonte, cheios de candeeiros acesos. Deviam ser as fogueiras enormes de que lhe tinha falado o tio Máquina. As lágrimas vieram-lhe aos olhos quando pensou que em casa deviam estar preocupadas por não saber dela. Mas, ao mesmo tempo sabia que agora era tarde demais para voltar e não havia outra solução senão entrar na cidade e procurar o pai.

Jamba voltou a avançar na direcção de Luzia. Os três secundaram-no de braços cruzados.

“O bando dos Terríveis decidiu e agora vais escutar! O Paizinho com sua lente que faz ver as coisas do tamanho que elas são viu-te a alma por dentro enquanto falavas e o Kafunhonho e o Vandame concordaram. Vamos levar-te à cidade, mas só amanhã. Hoje já é tarde. Vamos dormir no nosso esconderijo do espinheiro.”

A Gagalinha recuperou os sentidos nessa altura e ainda ouviu que iam dormir ao relento e antes de desmaiar suspirou: “Cá! Ai as raposas!”.

De noite, a cidade ao longe

Anoitecera e ao longe os caixotes eram agora muitos pontos de luz como se tivessem furado a noite e se visse o sol escondido por trás de panos escuros. Luzia perguntou ao Jamba: “Aquelas fogueiras lá ao fundo vão arder toda a noite? Não vão queimar as casas?” Jamba riu-se e disse-lhe que se chamavam lâmpadas e virou-se para o lado para dormir. Luzia não conhecia o significado de lâmpadas.

O Kafunhonho e o Vandame estavam deitados em torno da pequena fogueira e o Paizinho nem tirara o seu fato de latas para se deitar, segurava apenas o monóculo na mão. Luzia perguntou-lhe: “Paizinho consegues mesmo ver tudo no seu verdadeiro tamanho assim mesmo de longe?”. O Paizinho respondeu-lhe “Este óculo vê tudo no seu verdadeiro tamanho sim: os problemas - pequenos do tamanho das formigas, as coisas importantes - do tamanho do elefante, é só isso”. O Kafunhonho disse-lhe a gozar: “O que eu gostava era de ver com esse óculo o Koi-ri, é a coisa mais bela mas na cidade não há e ao longe esse óculo não funciona”. O Vandame entrou na conversa: “Tu nunca viste o Koi-ri e estás sempre a falar do que não sabes” O Paizinho e o Vandame riram-se. O Kafunhonho acrescentou depois de algum tempo: “Mas está escrito”.

Luzia disse: “Então acho que não dá para ver as lâmpadas ainda.”

E todos adormeceram. Sonhar é, muitas vezes, ver estas coisas que não se conhecem mais de perto.